terça-feira, 4 de novembro de 2008

Capacidade infantil de entender o teatro


Parte do texto extraído de ZURAWSKI, Maria Paula Vignola - A CONCEPÇÃO DE CRIANÇA E INFÂNCIA E O TEATRO QUE SE PRODUZ ATUALMENTE. Disponível em: Acesso em 04 nov. 2008.


Uma criança também tem grande capacidade de entender e fazer julgamentos a partir das peças teatrais que assistem.


"Ao reler o capítulo relativo ao teatro infantil no livro “O Estranho Mundo que se Mostra às Crianças”, de Fanny Abramovich, confesso que o mesmo não me impactou tanto quanto da primeira vez que o tive nas mãos. O teatro infantil parece ter mudado para melhor, talvez graças às idéias que reconhecem a infância e o direito das crianças à educação e à arte. Podemos dizer que há mais produções que encaram a criança como sujeitos do que na época em que a Fanny escreveu seu livro.


Para demonstrar como a visão de criança influencia os resultados de uma montagem teatral, tomemos como exemplo o original de “Pinnochio”, de Carlo Collodi. Este texto foi escrito dentro de uma concepção moralista de infância, onde o castigo físico era natural e a chantagem um meio comum de conseguir que os pequenos se comportassem dentro dos padrões esperados na época. Dependendo da idéia que um artista tenha a respeito das crianças, seu “Pinnocchio” para teatro pode:

  • eliminar totalmente as características cruéis do texto, poupando as crianças de vê-las em cena ou pensar sobre elas;
  • mantê-las e endossá-las por convicção própria, usando o texto como meio moralizante para educar as crianças e ensiná-las a não mentir;
  • mantê-las de forma a propor uma discussão crítica sobre “Pinnocchio”, levando as crianças a refletir sobre o que Pinnochio faz e por que, em que circunstâncias.

O que quero dizer é que qualquer obra, mesmo de caráter moralista, pode ser mostrada às crianças, desde que:

  • respeite o fato de que a criança pensa de forma qualitativamente diferente dos adultos;
  • reconheça o jogo como principal elemento de comunicação e expressão da criança, incorporando-o na linguagem teatral;
  • reconheça que a criança é mais ação e mais sensação do que verbal, cuidando para que música e imagens ocupem lugar importante nas montagens;
  • utilize um vocabulário adequado, que possa ser entendido pelas crianças;
  • ainda assim estenda seu vocabulário e experiências, não tendo medo de usar palavras novas, desde que contextualizadas, idéias e elementos novos que se relacionam, não “infantilizando” demais o espetáculo.
Portanto, é importante considerar que podemos comparar a criança ao adulto num sentido positivo — a criança é tão capaz quanto o adulto de fruir uma obra de arte — mas devemos ter sempre em mente que ela é qualitativamente diferente do adulto na maneira de construir seu conhecimento. Devemos identificar sempre as visões de criança que estão subjacentes aos textos e montagens teatrais e refletir sobre essa inter-relação: concepção de criança versus produto cultural."


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