terça-feira, 3 de outubro de 2017

Biblioteca - Mirim de Pôrto Alegre

Inaugurada recentemente a Biblioteca Pública Infantil de P. Alegre, falando no ato um menino desembaraçado. Presentes o Secretário de Educação e Augusto Meyer que se emocionaram com as crianças.


         Quem estivesse lá naquela hora do dia 12 de outubro certamente não teria coração que aguentasse tamanha emoção: grupos de meninas e meninos pôrto-alegrenses, dos quatro aos doze anos, vestindo as suas melhores roupinhas, com os olhos bem arregalados, ouviam atentamente as comovidas palavras do jovem Carlos Eduardo Legori que explicava às altas autoridades presentes as finalidades e a história da fundação da Biblioteca Pública Infantil. Vez que outra era o pequeno orador auxiliado na sua espinhosa tarefa pela Sra. Lucília Minssen. Diretora daquele pequeno núcleo de cultura que assim desvencilhava o menino dalgum embaraço.
         Mas esses não foram muitos e o resultado foi que Carlos Eduardo, que é poeta e escritor, emocionou a todos que o ouviam com suas palavras simples, entre os quais o poeta Augusto Meyer (que lá se encontrava para inauguração) e o Secretário de Educação, Sr. Liberato Salzano Vieira da Cunha. A êsse último o orador dirigiu-se de modo especial, neste apêlo tocante: “E ao senhor Secretário que representa o govêrno, pedimos que não se esqueça de nós”. Expressando-se com essas palavras. Ao final do discurso. O menino acabava de inaugurar oficialmente a Bibliotequinha. Pois ela desde há muito tempo que estava a disposição dos seus consultores mirins.
         A Biblioteca Pública Infantil está localizada por ora no modesto porão da bonita casa que serve de sede à Divisão de Cultura da Secretaria de Educação, na praça Dom Feliciano, ocupando duas amplas salas que outrora serviam de depósito para material velho, e que agora, completamente remodeladas e decoradas com excepcional bom gôsto pela pintora Alice Soares, têm um aspecto festivo. E a criançada não se cansa de admirar nas paredes aquêles desenhos, vivamente coloridos, representativos da nossa fauna e flora e ainda os dos conhecidos bonecos dos desenhos animados.
         Os méritos desta magnífica realização devem por justiça caber à professora do Curso de Biblioteconomia, Lucília Minssen, que ajudada por cinco funcionárias empreendedoras da Divisão de Cultura, muito batalhou para conseguir a verba necessária. Assim, em fevereiro do ano de 1955 era fundada em Pôrto Alegre a pequena Biblioteca que carecia de instalações condignas, mas nem por isso a criançada deixava de lá ir passar as suas horinhas de recreio. Hoje, a Bibliotequinha presta um grande serviço às mamães que não dispõe de empregada para cuidar dos seus filhinhos, pois as crianças lá são muito bem cuidadas e divertem-se tanto que, quando chega a hora de ir embora, não querem por nada dêsse mundo deixar seus amiguinhos e os livros coloridos.
         Segundo uma média fornecida por sua Diretora, 68,5 crianças diariamente passam algumas horas na Bibliotequinha. Suas idades oscilam entre quatro e doze anos, havendo mesmo um de 18 anos (cujo buço já o denuncia homem) que não se constrange de lá ir para consultar os preciosos livros. A criança que gostar de um livro e desejar levá-lo para casa terá que assinar uma ficha e entregá-lo após uma semana, o que a torna automaticamente matriculada na Biblioteca. Presentemente existem 712 que têm seus nomes no fichário da Diretora.
         2.500 livros, da mais variada literatura, preenchem o espaço das estantes, predominando os de história infantil. Entretanto, há acentuada preferência por Monteiro Lobato e outros escritores conhecidos da garotada, o que vem provar que até mesmo as mentes jovens sabem escolher com inteligência o alimento do seu espírito.




REVISTA DO GLOBO 03\11\1956

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